Vozes do Sistema
Marco de 900 mil toneladas destaca eficiência regulatória e maturidade da logística reversa no agro
Especialista analisa o significado do marco de 900 mil toneladas de embalagens vazias destinadas corretamente e destaca os avanços do modelo brasileiro de logística reversa no agro.

Em entrevista exclusiva ao Portal do Sistema Campo Limpo, o professor Flavio de Miranda Ribeiro, especialista em Economia Circular, Logística Reversa e Regulação Ambiental, afirma que o marco de 900 mil toneladas de embalagens vazias de defensivos agrícolas destinadas corretamente vai além de um número expressivo. Para ele, o resultado evidencia ganhos concretos para a saúde do campo, a preservação ambiental e a efetividade de um modelo de política ambiental que funciona na prática e é referência mundial.
“Antes mesmo de falar em economia circular, é preciso reconhecer que são 900 mil toneladas de embalagens que deixaram de ser descartadas incorretamente no meio ambiente. Se não fosse o Sistema Campo Limpo esse volume gigantesco estaria causando impactos ambientais significativos”, afirma.
Segundo o professor, a atuação do Sistema é essencial para assegurar a destinação correta das embalagens após o uso no campo. E, a partir do momento em que esses materiais retornam ao Sistema, entra em cena um segundo ganho relevante: a recuperação de materiais, especialmente por meio da reciclagem.
“Estamos falando de uma grande massa de plásticos que ganha uma nova vida. Isso significa, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente e reduzir o consumo de matéria-prima virgem, especialmente o petróleo”, destaca.
Referência internacional construída com governança e educação ambiental
O reconhecimento do Sistema Campo Limpo como referência internacional em logística reversa também passa, na avaliação de Flavio Ribeiro, por decisões estruturais acertadas desde a sua origem. Um dos principais diferenciais é a existência de uma entidade gestora única, sem fins lucrativos, administrada pela própria indústria.
“A entidade gestora existe para representar os interesses de quem detém as obrigações legais. Ela não deve gerar lucro, mas garantir que os recursos investidos sejam integralmente direcionados para a operação, com eficiência e resultado”, explica.
Além da governança, o professor ressalta o papel contínuo da educação ambiental e da comunicação junto aos agricultores. “O investimento constante em conscientização é fundamental para que o agricultor entenda a importância de participar do sistema e de fazer a destinação correta. Esse engajamento é um dos pilares do sucesso do Sistema Campo Limpo”, avalia.
Responsabilidade compartilhada como base do sucesso
Do ponto de vista regulatório, o especialista destaca a responsabilidade compartilhada, prevista em lei, como um dos grandes avanços da legislação ambiental brasileira e um elemento central para o desempenho do Sistema.
“Para que um elo cumpra sua responsabilidade, o anterior precisa fazer a sua parte. Não adianta a indústria estruturar a logística reversa se o agricultor não devolve as embalagens. O Sistema Campo Limpo conseguiu transformar esse conceito legal em uma conexão real entre os elos da cadeia”, afirma.
Para ele, a clareza na definição das responsabilidades legais garante segurança jurídica, viabiliza investimentos e permite que o Sistema funcione de forma eficiente e sustentável ao longo do tempo. “É um Sistema que tem custo. Se não estiver claro quem faz o quê, fica impossível dividir essa conta”, completa.
Alto índice de reciclagem começa no campo
Outro ponto destacado por Flavio Ribeiro é que o alto índice de reciclagem das embalagens está diretamente ligado a um alto índice de devolução. “Hoje, é raríssimo que uma embalagem de defensivo permaneça no campo, e isso é resultado direto de educação ambiental, comunicação contínua e também de instrumentos regulatórios, como o controle por nota fiscal e o receituário agronômico”, explica.
Ele também chama atenção para a importância da tríplice lavagem, procedimento normatizado no Brasil. “Ela é fundamental para viabilizar a reciclagem. Sem esse processo, muitas embalagens sequer poderiam ser recebidas por recicladores”, afirma, destacando ainda os avanços feitos pela indústria no desenvolvimento de embalagens cada vez mais recicláveis.
Desafios para o futuro
Ao olhar para o futuro, Flavio Ribeiro destaca três pontos centrais para a continuidade do sucesso do Sistema Campo Limpo. O primeiro é a manutenção da eficiência e da qualidade do modelo, preservando características que são fundamentais para a logística reversa de embalagens de defensivos agrícolas.
Outro desafio está relacionado à necessidade de garantir isonomia no cumprimento da legislação, especialmente em um cenário de crescimento de produtos importados e do mercado irregular. Para o especialista, assegurar que todos os agentes envolvidos assumam suas responsabilidades é essencial para a sustentabilidade do sistema.
Segundo ele, fortalecer esse debate contribui para manter o Brasil alinhado às boas práticas internacionais e preparado para atender a exigências ambientais cada vez mais presentes no comércio global.